por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 83 - "YO NO CREO EN BRUJAS,,,"

            

             NOTA  - É do conhecimento dos leitores que o trabalho que estou publicando foi escrito há exatos dez anos atrás. Tendo em vista a perda de muitos originais, escritos à época, continuo numa garimpagem, as vezes cansativa; as postagens seguem cronologicamente, à mediada do possível, a ordem de criação. No caso do capitulo que estou postando, a seguir, obedecendo à regra estabelecida, deveria ser postado antes do Capítulo 45 - O CABOCLO TUPINAMBÁ". 


          “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Para mim tal provérbio (do livro Dom Quixote de Miguel de Cervantes Saavedra) é válido, pelo menos em se tratando de “discos voadores”, como eram chamados os óvnis na década de sessenta.

            Nos últimos dias a imprensa voltou a explorar o assunto que sempre desperta a atenção do público e, sobretudo, ajuda a incrementar a tiragem dos periódicos, o que nos faz mui justamente pensar na hipótese de tratar-se exclusivamente de um esquema comercial.
  
           Assim foi com Elba Ramalho que se disse abduzida por estranhos seres e da fogosa Tiazinha que acabou chegando a conclusão de que vira era apenas um dirigível de propaganda do Goodyear.

          Até a responsabilidade pelo blecaute de 11 de março de 1999 tentou ser imputada a estes engenhos extraterrestres. Também se vendeu muito jornal e revista com o assunto “chupacabras”  possivelmente obra de um viajante alienígena tecnicamente chamado de “Intruso Esporádico Agressivo, o IEA.

          A coisa complica quando o depoimento de visões extraordinárias vem de pessoa idônea como foi o caso relatado pelo Coronel Ozires Silva, em 1986, que exercia na ocasião a Presidência da Petrobrás.

          Agora a minha história.

          O fato que passo a contar aconteceu alguns dias antes do início de meu derradeiro vestibular. Para variar estava muito tenso.
Já eram quase duas da manhã.

          Aquele tinha sido mais um dia de verão típico do mês de janeiro. Sol a pino, temporal à tarde e à noite a atmosfera livre e solta, envolvida apenas pela brisa que trazia o suave perfume da mata e o excitante cheiro de terra molhada. Dia e hora de cada prova já estavam marcados; era crucial dedicar todos os cuidados à terrível química.

           NaClO³ + calor à NaCl + 3/2 O²  depois, alcanos, alcenos, alcinos... Parecia até escalação de time de futebol.
          O sono já por algum tempo vinha querendo me derrubar. Talvez uma chegada à janela, respirar o ar puro da noite de certo me faria bem. A madrugada tranqüila convidava a um bom sono, mas aquelas infelizes leis de Dalton, de Raoult e o bendito “fator de Van´t Hoff atormentavam meu juízo.

          Quando iria acabar aquele martírio?...

          Súbito um som familiar fez-se ouvir cada vez mais forte: era o bonde das duas que vinha chegando à última viagem do dia. Fez a volta direto, pois não trazia e nem havia passageiros a transportar.
Simbolicamente aquele derradeiro bonde do dia, trazia o sentimento de fim, ponto final em mais uma etapa da jornada de nossas vidas.

         De volta, o silêncio me avisava que era hora de retornar aos livros para mais alguns minutos de tortura. No entanto quando ia me afastar da janela vejo encostar junto ao meio-fio, defronte ao portão da vila, um taxi.

          A curiosidade me prende à janela. Quem poderia ser a estas horas?

          Não havia mais dúvida era nossa vizinha Aidê da casa 7 com os seus quarenta já passados.

-         Estudando ainda, seu Carlinhos?
-         Não é por gosto meu. Preferia estar fazendo algo bem mais agradável...
-         Você sabe que horas são, menino?
-         Duas e tal.
-         Hora de criança estar na cama!

          Quando preparava uma resposta bem atrevida, afinal aquela amizade vinha dos tempos das fraldas e nos permitia essas brincadeiras, algo inusitado interrompeu nosso papo...

          Uma luz branca de alta intensidade, vinda do alto do céu, quase nos cegava. Aproximava-se lenta e silenciosamente cada vez com maior brilho. Tudo ao nosso redor resplandeceu como se fora o mais claro dos dias. O foco de luz tinha a forma redonda de um contorno preciso e inconfundível.

          De repente, parou...

          A “coisa” havia surgido por detrás do apartamento do João Bosco, fronteiro à minha janela, aliás, no mesmo edifício em que morava a “judia que judiava”, lembram-se? A mata, as construções, Dona Idê, tudo ficou branco como uma paisagem coberta de neve. Silêncio total!!!

           Depois, ainda sem emitir qualquer som foi subindo, primeiro, lentamente e logo após com velocidade incrível.

           Noite novamente.
           Nós ali, paralisados. Assim permanecemos por algum tempo.
Quanto? Não tenho a menor idéia.

-         Carlinhos, meu filho! Que foi isso?
-         E eu sei Dona Idê!
-         Estou com as pernas bambas.
-         Desço já até aí.

            Depois de alguns copos d’água, pudemos conversar. Ninguém acordou e o silêncio era total.

          -   Meu filho, vem comigo até minha porta que eu acho que nem a fechadura vou acertar.
-    Vamos lá.

           Voltei correndo batendo forte com os pés no chão para espantar o medo. Imagina se aquela “coisa” volta? Tranquei a porta, subi rapidamente para o quarto e fechei a janela mesmo estando um calor infernal.

          Abandonei os livros como estavam e deitei-me.

          Um custo pegar no sono.

          No dia seguinte conversando com meus amigos fiquei sabendo que àquela mesma hora alguns deles estavam jogando conversa fora no nosso ponto de encontro tradicional, a mureta do Genarino - há menos de trinta metros onde estávamos eu e Dona Idê. 

          Ninguém vira nada. E o pior: passaram a olhar-me com certa estranheza. Para não complicar as coisas parei por ali e me abstive de mais comentários.


          Dias depois, conversando com Dona Idê, ela dizia da incredulidade com que a ouviam e, também, resolvera colocar um ponto final naquela história. Nós dois sabíamos da veracidade do acontecido, mas como convencer os outros?

          E adiantava?...

          Até hoje não sei o que foi aquilo.

         “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.


              Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito, provavelmente, ao longo do ano de 2004 em Arraial do Cabo - RJ






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