por José Carlos Coelho Leal
domingo, 22 de janeiro de 2017
"CHEIROS DA VIDA" - 155 - VOU SER PAPAI!!!
Desde novembro de 1966 com a indicação para Chefe do Serviço Planejamento e Controle de Obras, minha vida vinha, a cada momento se transformando. Eu mesmo me surpreendia com a rapidez dos acontecimentos. Além do salário que tivera um grande incremento, eu, agora como chefe do 1 DT-S passava a ter direito ao uso privativo de um carro oficial - chapa branca - com motorista, os conhecidos "faixa-amarelas" do Estado da Guanabara. Tratava-se de um utilitário Vemag, uma Vemaguete novinha prefixo 2-680 da Sursan.
Pela manhã ia para faculdade de ônibus ou, em dias afortunados, de carona. Ao final das aulas, por volta do meio-dia, lá estava o 2-680 à minha espera. Tive sorte com o motorista pois, era comum as reclamações contra esses profissionais, normalmente funcionários em fim de carreira. O Manuel era um funcionário já com dois ou três anos de experiência e um pouco mais jovem do que eu. Ficava fácil o diálogo. Tratava-o com cordialidade e recebia de volta o mesmo tratamento. Sempre nos demos muito bem.
Quase todo dia dava carona para algum mestre que descia famosa ladeira da Fonseca Teles em busca de uma condução ou quem sabe de um táxi para tirá-lo de São Cristóvão. Fosse de que turma fosse fazia aquilo por gentileza e também, confesso, só para tirar uma onda.
Evidentemente meus amigos sem carro eram frequentes usuários. Me sentia o "Rei da Cocada Preta".
Vale aqui uma observação. A F.E.U.E.G - Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado da Guanabara - era uma escola pública. Pois bem: uma das principais reivindicações dos alunos era a ampliação do estacionamento tal a quantidade de alunos proprietários de carro que a frequentavam. Coisas do Brasil...
O importante: os meses finais do ano de 1966 foi muito alvissareiro para mim e merecedor de muitas comemorações. Estava muito contente comigo mesmo, tal o número de coisas boas que vinham acontecendo.
Quando recebi pela primeira vez o novo salário quase não acreditei. O dinheiro, coisa que não vinha acontecendo há muito tempo, dava para pagar todas as despesas programadas e ainda sobrava uma quantia nada desprezível. Evidentemente que Tania e eu comemoramos em grande estilo, numa festinha muito íntima; só nós dois, é claro.
Para mim não era novidade. Mas nessa noite não consegui dormir planejando o que deveria fazer para que esse dinheiro rendesse o máximo possível.
Estava feliz, principalmente porque tudo o que vinha acontecendo significava que estava
recuperando o padrão financeiro a que me acostumara em Petrópolis. Até que foi rápida esta etapa de minha vida.
No dia seguinte tomei algumas providências que havia planejado na noite insone. Já à noite depois do jantar, desliguei a televisão e disse.
- Minha digníssima senhora Tania, faça o favor de sentar-se aqui ao meu lado pois temos, pelo menos, dois assuntos muito sérios a tratar.
- Virgem Maria! Do que se trata? - disse Tania meio assustada.
- Calma! Os assuntos são importantes, sérios, mas sumamente agradáveis.
- Você adora me dar susto.
- Você é que se assusta a toa. Mas, vamos lá. Está vendo esse documento em forma de um carnê? Esta vendo o logotipo da Wolkswagen na capa?
- Você é louco! Não me diga que comprou um carro.
- Comprar ainda não comprei. Mas, comecei a comprar e já paguei a primeira cota.
- Que cota?
- Assinei um contrato com a União dos Revendedores Wolkswagen e já paguei a primeira cota. No fim do mês concorro ao primeiro sorteio. Vai que o sorteio me beneficie?
- Você vai ficar com um carro na garagem.
- Já está tudo combinado e o Pedro vai me dar algumas aulas e rapidinho tiro a carteira de motorista. Cumpri minha palavra: só tirarei carteira quando tiver meu carro. Chegou a hora. É isso que vai acontecer. Com o que estou ganhando tiro de letra esse Consórcio. É possível até que em poucos meses, se a sorte não me favorecer, compro o carro por lance e pronto: mais um sonho realizado.
- Você é doido mesmo. Mas é meu amor!
- Agora o assunto mais importante.
- Ai minha Nossa Senhora!!! O que vem pela frente...
- Um filho! Vem um filho!
- Como?
- Um filho! Com o que estou ganhando e, considerando que dentro de alguns meses estarei formado e ganhando como engenheiro, não há mais motivos para não ter um filho. Aliás filha! O que Deus nos der estará bom mas, vou conversar com Ele para me dar uma filha. Chega de homem nessa família.
- Mas...
- Não tem mas! Amanhã você vai marcar o Dr. Eurico Carneiro para saber direitinho como proceder para encerrar essa etapa de "pílula" que fez você emagrecer demais. Quero de volta a minha mulher que ganhei no dia nove de julho de mil novecentos e sessenta e cinco.
Dai para frente foi uma porção de beijos e carícias.
Resumo: mais uma noite sem dormir. E eu feliz da vida como não me sentia a bastante tempo.
Finalmente, em 1967 vou ser engenheiro e papai. Quem sabe? Ainda com um carro novinho zero quilômetro.
Em tempo: Dr. Eurico Carneiro era o médico ginecologista da Tania. Na verdade era amigo do meu sogro e trabalhava quando estudante de medicina na Farmácia Giffoni (rua Primeiro de Março, 17) para custear seus estudos. Outro detalhe ele, já médico, fez o parto de Dona Nice quando Tania veio ao mundo. Dr. Eurico e Lucia, sua mulher, foram os padrinhos de batismo da Tania. Acho linda esta história.
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