por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 108 - IMAGINEM EU?!!!




                De volta ao dia-a-dia de Petrópolis recebi muito carinho de colegas, alunos e até de professores da faculdade, em especial o Professor Miguel que parecia tão feliz quanto eu pela minha intrepidez de ficar noivo. Nunca tive oportunidade de dizê-lo: minha decisão, em grade parte, fora influenciada por  aquele diálogo rápido de uma tarde de sábado.

          Sentia-me animado como nos primeiros momentos de vida acadêmica naquela cidade. Muita coragem, ânimo e otimismo. Quase não lembrava mais daquele Zé Carlos abatido de semanas atrás.

          A decisão de vender o Curso foi logo tomada; consenso imediato conforme acordo com meu sócio e, já agora grande amigo, Ivan Padilha. Levaríamos o curso até o Vestibular de 1965 concluso e, logo após, com o resultado estupendo como na realidade aconteceu, anunciaríamos a venda sem alarde, para alguns interessados já cadastrados. Com a matrícula  para o novo ano letivo já iniciada, com bastante aceitação, foi fácil a negociação.

          Vendemos por um bom preço e com a parte de 50% que me coube comprei um apartamento no Rio. Na verdade comprei o apartamento de meu irmão Luiz Cesar que já estava de mudança para outro maior que adquirira na Rua Uruguai.

          Ficava mais próxima a consecução dos planos de Tania e meus. De imediato começamos a visitá-lo com assiduidade a cada oportunidade,  procurando sempre sonhar e planejar as modificações, obras, confecção de armários e pintura a nosso gosto.

          Verdade se diga: Maria Helena, minha cunhada e, Luiz Cesar, meu irmão, conservaram muito bem aquele patrimônio acarretando um custo bem baixo nas adaptações a nosso gosto. Enfim planejávamos nosso lar que de sonho tornava-se  a cada dia mais e mais uma realidade e fonte de felicidade.

         Já em fevereiro de 1965, num certo dia de verão lindo.  passei-o praticamente na íntegra dando aula de revisão e preparação para prova de desenho que se realizaria na manhã do dia seguinte na PUC do Rio de Janeiro.

         A minha participação estava prevista para terminar ás 19,30 horas quando passaria o bastão ao colega Marcio Eiras que levaria a tarefa até às 22,30 horas.

        Terminada a minha participação, bastante esgotado procurei livrar-me o mais rapidamente de meu jaleco, passar uma água no rosto e correr para pegar o ônibus da Única que passaria na esquina às 19,45 horas com destino ao Rio.

          Fui abordado, já na calçada da Rua Barão de Tefé, por um aluno: o  Bragança.

         -  Professor Leal! Meu carro está estacionado ali na esquina. Proponho levá-lo até sua casa no Rio, um pulo e, em troca solicito passar a noite me explicando toda matéria de Perspectiva. Não levo noção da matéria e, sei que sempre cai uma questão valendo quatro decisivos pontos.  É "nota garantida". 

         - É, isso o que tem acontecido nos últimos anos.

         - Então! Assisti algumas poucas aulas. Seu método é simples, claro e compacto; muito bem bolado. Tenho certeza que em quatro ou cinco horas posso captar toda a matéria.

         - Até ai tuto bem. Sei que você é um cara de rara inteligência e bastante objetivo. Eu é que me acho incapaz desse milagre, sobretudo, depois de um dia de intenso trabalho.

          -  Basta o senhor condensar todo o programa para mim; tenho certeza que do resto dou conta. 

          - Será que faço essa proeza. Passar toda uma matéria em algumas poucas horas madrugada a dentro?

          -Claro que sim! Pago o preço que o senhor pedir.

         Bragança era um aluno de inteligencia fora de série, bem dotado de recursos financeiros, dono de um belo carro esporte porém, pouco assíduo às aulas. 

          Pensei por um lapso de tempo: não estou roubando ninguém, o cara tem dinheiro para valer; eu estou precisando de "gaita" para realizar meu sonho e mais, não sou malandro e as madrugadas jamais me meteram medo.

         Pensei mais um pouco e disse: seja o que Deus quiser; vamos lá a esse desafio. Te cobro tanto (pisei forte!). Não houve contestação. 

        Quando dei por mim estávamos na minha casa modesta da Tijuca com mamãe servindo algo para nos alimentar e a aula rolando. Esse mister foi quase até às sete da manhã quando o cara assinou o cheque e à toda, após um saudável café da manhã, se mandou para a PUC.

         Dias depois me presenteou uma garrafa de uísque dos bons em agradecimento . O meu aluno de última hora tirou sete na prova e havia passado para Engenharia da PUC.

         Nunca, jamais, fui tão bem remunerado por algumas poucas aulas. Se ele estava feliz; imaginem eu?!!!

         - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida! escrito em Arraial do Cabo em 2005.

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