por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CHEIROS DA VIDA - 154 - OS SERVIÇOS RELEVANTES



                 O mais importante do plano de reordenamento de locação de funcionários foi aquele de adequar cada setor ao número ideal de profissionais, preparados tecnicamente para a missão a desenvolver, sem privilégios e procurando minimizar prejuízos para aqueles que seriam obrigados a tomar novo destino.
          Alguns, de imediato, desfalcaram a minha nova equipe a ser formada, seguindo o seu até então chefe e a convite dele, convidado que fora para um novo cargo mais elevado dentro da hierarquia profissional, qual seja o de Assistente do Diretor do Departamento Financeiro da Sursan. 
          Assim restaram onze funcionários  (minha tarefa ficara sensivelmente diminuída) e, após estudo minucioso, reduzi finalmente minha equipe para os  sete colaboradores conforme meu planejamento inicial. Os não aproveitados na minha equipe tiveram o apoio de seus companheiros para serem aproveitados em outros órgãos ou, até facilitadas suas voltas às secretarias de origem. Haviam sim, professoras que estavam fugidas das salas de aula e tiveram que voltar à sua nobre missão. Estas talvez não tenham gostado muito. Problema delas...
          Resumo da aplicação desta resolução administrativa, a princípio julgada por demais radical; melhor adequação de atividades e melhor padrão de produtividade para toda a Sursan, sem aumento de despesa e sem agressão a legislação vigente. 
          Poucos foram os desgastes pessoais ou queixas de perseguição ou assemelhados. Tiveram sim que lutar por melhor produção para alcançar o novo padrão de remuneração.
          Na  verdade toda essa operação foi feita com base legal com a aplicação na prática de uma gratificação regulamentada e em desuso o chamado "Serviço Relevante". Tudo dentro da lei e sem precisar de lutas de aprovação junto ao Legislativo e de acordo com a Junta de Controle (o verdadeiro Tribunal de Contas das Autarquias) presidido na época pelo operante  Dr. João Lyra Filho. 
           Como os postulantes à gratificação de Serviço Relevante dependiam do número de competidores por tal remuneração, é claro acompanhado pelo seu próprio desempenho técnico e administrativo pessoal, surgiu no departamento o jocoso e debochado slogan "mate seu semelhante e aumente eu relevante", um chiste engraçado mas, convenhamos, de péssimo gosto.
          Estava cumprida a minha primeira missão como Engenheiro Chefe do 1DT-S - Serviço de Planejamento e Controle de Obras do Departamento de Urbanização da Sursan (Superintendência de Urbanização e Saneamento da Secretaria de Obras do Estado da Guanabara).                                                                                                                                                                                                          

domingo, 20 de novembro de 2016

"CHEIROS DA VIDA" - 153 - INOVANDO SEMPRE




          Acho que o mundo está virado de cabeça para baixo. Passamos há pouco tempo por um rito eleitoral e foi uma lástima tudo que aconteceu. Candidatos despreparados, a mediocridade reinando nas apresentações e nos debates.  Resultado: prefeitos de quinta categoria compromissados com terceiros, interessados unicamente em seus planos de enriquecimento pessoal, totalmente alheios aos problemas e soluções relativos aos assuntos municipais.
            Idem, idem na maior nação do mundo. A eleição americana teve uma campanha digna da mais reles nação do terceiro mundo. Uma baixaria só.
           O resultado não deixou nada a dever com a eleição de Donald Trump incorporação perfeita de um requintado cafajeste à margem da lei e da cidadania digna. 
           Contrariamente à realidade que vivemos hoje, cercada de aflições, expectativas agourentas e previsões de longo período de trevas, aquela época, em pleno terceiro ano do movimento de 1964, vivíamos um ambiente de segurança, progresso e tranquilidade (apesar que na atualidade a mídia quase toda dominada pela esquerda diz que vivíamos um circo dos horrores - os anos de chumbo). Na verdade aqueles envolvidos em lutas ideológicas para implantação de uma ditadura de extrema esquerda, estes, sentiam-se acuados e ameaçados. A maioria esmagadora de  brasileiros viviam sua vidas uma liberdade sem limites.
          Em novembro de 1966 recebi com orgulho o convite para assumir a chefia do serviço no qual trabalhava. Em 24 de novembro de 1966 minha portaria foi assinada pelo Governador Embaixador Francisco Negrão de Lima. Fui nomeado Chefe do Serviço de Planejamento e Controle da Divisão Técnica do Departamento de Urbanização da Sursan da Secretaria de Obras do Estado da Guanabara. Serviço este, ligado diretamente ao Gabinete do Diretor do Departamento.
         Lacerda, apesar de ter feito um governo reconhecidamente profícuo, não conseguiu eleger seu sucessor. Assim o Embaixador Francisco Negrão de Lima foi eleito governador compondo uma chapa unindo seu partido PSD - Partido Social Democrático ao PTB - Partido Trabalhista Brasileiro representado pelo então eleito Vice-Governador Rubens Berardo jornalista e dono de uma empresa radiofônica, a Emissora Continental, eminentemente especializada em jornalismo e posteriormente ampliada com a fundação da TV-Continental de vida curta.

          O resultado das eleições de 1965 foi. 
1º Negrão de Lima, PSD com 582.026 votos; 2º Flexa Ribeiro, UDN  com 442.363 votos; 3º Amaral Neto, PL com 40.403 votos;  4º Aurélio Viana, PSB com 25.841 votos; 5º Helio Damasceno, PTN com 14.140 votos.
          Negrão de Lima foi eleito com 52,68% do votos válidos.
          Foi neste governo (no qual não votei) que passei a ocupar pela primeira vez uma chefia na minha  longa carreira na Prefeitura. Na verdade meu nome foi referendado pelo Engenheiro Raymundo de Paula Soares, então, o novo Secretário de Obras que tomara posse cheio de novas idéias e disposto a fazer uma administração que marcasse época. Por tudo isso imaginem com que euforia e gana eu assumia meu novo cargo.
          Compondo  seu plano de administração Paula Soares expedira logo ao início de sua atuação uma política agressiva de pessoal, fixando como teto máximo de gasto com salários para o total dos funcionários de cada setor administrativo, descendo até o nível de Serviço,  o que passava a ser o valor global de cada setor, aquele praticado em outubro de 1966.
           Assim esse valor de cada setor poderia ser atingido pelo número total de funcionários respectivos. O objetivo real por trás dessa política seria a redução de número de funcionários considerados demasiados para o bom desempenho da máquina administrativa.
           A responsabilidade da montagem de cada equipe de cada setor caberia ao chefe. Minha primeira missão: eu chefiava (sim, era eu) um Serviço que tinha quatorze funcionários ao custo total de X Cruzeiros. 
          Eu poderia permanecer com esses 14 auxiliares ganhando o mesmo salário ou, remunerar melhor aqueles qualificados com boa produtividade, reduzindo o número total de profissionais.
          Assim fiz: como conhecia de sobejo todos os que trabalhavam no 1 DT-S, essa era a sigla do Serviço de Planejamento, fiz uma análise nome a nome da atuação e desempenho de cada auxiliar. Reduzi de quatorze para sete o número total de funcionários, devolvendo, inclusive aos órgãos de origem funcionários que estavam equivocadamente lotados no meu Serviço, como por exemplo da Secretaria de Educação que lá estavam, possivelmente por compadrio, com baixo desempenho, apenas para fugir das salas de aulas. 
           De saída comprei algumas antipatias mas, pude remunerar bem melhor aqueles que iriam me ajudar numa nova fase que sabia iria ser implementada pela administração de Paula Soares. 
          Assim foi feito e tive meu primeiro sucesso. No final do ano seguinte, meu 1DT-S foi eleito o Serviço mais eficiente do Departamento de Urbanização recebendo medalha de ouro na festa de fim de ano realizada no Canecão, presente  toda a comunidade da Prefeitura. 
           Fiquei feliz e orgulhoso daquele feito, afinal fora um ano difícil tendo em vista, inclusive, as chuvas de verão que quase destruíram a cidade. Foram dias de muito risco e trabalho. Toda a minha equipe cumpriu com especial zelo e responsabilidade, exemplarmente,  as árduas missões a ela impostas, sendo, o que era novidade no serviço público, o que aconteceu. 
           Ao final de cada mês eram remunerados com justiça em função do grau desempenho pessoal dentro do grupo. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

CHEIROS DA VIDA - 152 - IMPOSSÍVEL FICAR INSENSÍVEL




          
          Já cumpri uma caminhada de setenta e sete anos. Talvez mais longa que jamais imaginara e, ao olhar com cuidado minha estampa no espelho vejo meu rosto marcado pelo tempo decorrido mas, talvez, ainda com um brilho de quem ainda não perdeu a capacidade de sonhar, apesar dos tropeços, que foram vários e, cada vez mais sérios, ao longo desta jornada preparada por meus pais, acompanhada de meus entes queridos e aquecida pela quantidade de amigos que consegui granjear ao longo do percurso. 
         Devo ser grato a Deus: fui um cara feliz.
         Chegou o momento de repetir a frase sobre a qual tenho meditado longamente. Frase madurada e  realista: "ninguém chega impunemente aos 77 anos"...
          Além da doença que teima em fazer um périplo pelo meu organismo disseminando por onde circula células de má fama, dor, desconforto bem como limitando as ações habituais de um ser hígido e gerando tratamentos prolongados e sofridos; tudo isso a custa de um cansaço exagerado e, trazendo momentos de intensa solidão acrescidos pela tomada cotidiana do conhecimento de novas informações pela mídia perversa que não deixa um segundo de trazer problemas para a cabeça de cada cidadão consciente. 
          São cada vez mais graves as notícias e perto de nós afligem  problemas políticos-sociais-econômicos que em tempo algum acometeram esse pais em semelhante grau - fruto de uma torpe tomada do poder engendrada com a finalidade de sorver até o último recurso da nação, pouco importando o destino de milhões de brasileiros, fazendo hibernar num limbo cruel 13 milhões de desempregados e mais de 60 milhões de cidadãos inadimplentes.
          Os amigos alertam: - está na hora de pensar só em você.
          E os meus filhos, meus netos, todos que me cercam e me fazem tomar conhecimento de seus dramas. Sou um cidadão brasileiro, e como tal devo ser em qualquer hipótese solidário com eles; assim fui educado, assim minha fé me deu convicções e devo assumi-las  até o fim...
          Impossível ficar insensível...