por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

           

           "CHEIROS DA VIDA" - 140 -  UM GRANDE PRESENTE

                     Mal havia retornado ao nosso escritório, depois do almoço promovido pelo "General" Masson, antes mesmo de  aproximar de minha mesa, não nos víamos a quase um mês, eis que chega o recado que não gostaria de ouvir: meu chefe precisava falar urgentemente comigo.
            Chegando em sua sala, fui logo ouvindo:
            - Zé Carlos temos tarefa nova e conto com você para, além das atividades de rotina, assuma uma posição de coordenação para a elaboração da "Proposta para o Orçamento-Programa" do Departamento de Urbanização para 1966.
           - Para variar não tenho a menor ideia do que se trata.  
           - É uma empreitada trabalhosa porém fundamental e de muita responsabilidade para funcionamento da Sursan no próximo ano.
           - Em que consiste essa empreitada?
           - Todo o Departamento terá que participar. Nosso trabalho é, primeiramente, coletar as informações relativas ao andamento das obras em execução, aquelas a serem terminadas e, também, as planejadas. 
           - Isso já temos em nossos arquivos que espero estejam atualizados. 
           - Depois temos que seguir passo-a-passo o preenchimento de múltiplos formulários até chegar à nossa Proposta para o Orçamento-Programa do DURB para o ano que vem, evidentemente referendada pela direção do departamento e balizada pelo valores globais fornecidos pela Coordenação de Planos e Orçamentos da Secretaria de Planejamento do Governo do Estado da Guanabara. Vais ter contato permanente com a equipe da Secretaria de Planejamento, cuja maioria você já conhece. Certamente conhecerá também o cabeça de tudo isso: Dr. Jose do Rêgo Monteiro - trata-se de um profissional de primeira e muito entusiasmado pelo que faz. 
            - Bonito o negócio... Por onde começo?
            - Leve para sua mesa toda aquela coleção de volumes que ali está. Lá estão todas as instruções de como proceder, de como obter dados, forma de apresentar as justificativas, os orçamentos e custos, bem como a importância de cada intervenção no Plano de Obras da Cidade.
            - Sei...
            - Te aconselho que antes leia com atenção a Lei 4320/64 que institui o "orçamento-programa" de cada unidade do Brasil.
            - Só isso?
            - Por enquanto.
            - Ta legal!
            - Tem mais. Existem prazos para entrega de cada parte específica.
            - Sem possibilidades de adiamento.
            - Sem!!!
            - O que tem que ser, será. Deus nos ajude...
            Logo que fiquei livre fui atrás da Lei 4320/64 - "Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964.
            Estatui Normas Gerais De Direito Financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanço da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal ."
            No primeiro dia de trabalho após a Lua de Mel, ganhei esse mais novo presente. O importante é citar que o Estado da Guanabara, foi o primeiro, ou um dos primeiros, a implantar tal "Orçamento-Programa" em todo o Brasil.
            O "Orçamento-Programa" consiste, na realidade, como um plano executivo, um instrumento de planejamento da ação do governo, por meio de seus programas de trabalho, projetos e atividades, além do reconhecimento de objetivos e metas a serem implementados. Todos esses elementos embasados nos respectivos custos e na prioridade real de cada empreendimento. 
            Em suma, todos esses elementos serão previamente elencados e discutidos por toda a equipe técnica da cada setor envolvido e merecerá, uma vez aprovado e, no ano de sua execução, análises de integração, planejamento, orçamento, quantificação de objetivos,  alternativas, acompanhamento físico-financeiro e finalmente avaliação de resultados.
           De imediato fiquei assustado. À medida que manuseei  todos aqueles tomos, verifiquei da importância dos documentos a serem gerados e percebi que à sua conclusão dar-se-ia antes do final daquele mês corrente; ao final estaria conhecedor de cada intervenção da Sursan em cada recanto desta cidade. 
           Seria uma oportunidade ímpar para realmente avaliar de perto todos os problemas urbanos de uma cidade-estado como era o nosso Estado da Guanabara.
           Começava, sem perceber, uma nova etapa de minha vida profissional naquele dois de agosto de 1966.

           


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

          "CHEIROS DA VIDA"  -  139  -   "ACABOU-SE O QUE ERA DOCE"

           - Na segunda-feira "acabou-se o que era doce". Vamos entrar na vida de casados para valer. No meu caso Faculdade pela manhã e Sursan à tarde até a "hora do sei lá...".
           - Mas antes teremos o aniversário do meu maridinho...
           - É mesmo. Dia primeiro de agosto será domingo que vem, primeiro de agosto de 1965; farei vinte e seis anos.
           - A gente prepara um lanchinho, uns docinhos e refrigerantes, um bolo e convida só a família. Pais, irmãos, cunhados e sobrinhos. Está combinado?
           - "Manda quem pode e obedece quem tem juízo". Lá se vão meus últimos cruzeirinhos deste mês.
           - Mas vale a pena.
           - Será a primeira vez que abriremos nossos salões à sociedade - falei com toda a pompa.
           E assim foi. A família estava toda presente ávida de novidades.
           Foi tudo muito bom e sentimos que verdadeiramente estávamos entrado numa nova fase de nossas vidas.
           Na verdade depois de quase trinta dias de "boa-vida", coisa que fazia tempo eu não saboreava, já estava com saudade de meus companheiros de faculdade e do trabalho. E, sobretudo preparado para as gozações que seriam infalíveis.
            Na Sursan então a coisa foi para valer sendo que o "velho" general Masson - já falei dele alguns capítulos atrás - arrastou uma boa quantidade de gente para comemorar minha volta; o "ágape" já estava previamente marcado para a Churrascaria Parque-Recreio, no Flamengo, com seu famoso "filé lanhado no sal grosso".
          Interessante... Agora, no momento exato que recordo essas coisas agradáveis, madrugada já avançada, o inverossímil acontece; sinto uma nostalgia diferente daquelas que senti ao longo da vida. Muito pesada, sacrificante mesmo.
          Tudo que passei nestes últimos meses marcaram fortemente meu sentir. Às vezes pressinto que talvez não tenha mais a capacidade de garimpar meu "inventário de saudades" como gosto de chamar essas linhas. Uma tristeza dorida fere minha alma. Tudo foi tão bom. A vida passou com tanta pressa. E agora...
           Será que isso tudo é consequência só da  doença que me atingiu, ou, existe algo mais a influir nesse estado de espírito.
           Certamente não preciso de muito tempo para chegar a uma conclusão: nunca, ao longo destes setenta e seis anos de vida vi nosso país num estado tão lastimável. Roubado, vilipendiado, anarquizado, humilhado vem dia-a-dia enterrando mais e mais as esperanças de qualquer cidadão que se honra em ser brasileiro.
           Lamentável que tudo isso atinge tão fortemente nosso coração e nos deixa angustiados pois, cada vez mais, ficamos impotentes para romper de vez com esse estado de coisas. Olhamos para nossos  filhos e netos com uma angustia incomensurável.
           Vamos respirar fundo, pedir a Deus forças e continuar sonhando com um Brasil de nossos desejos e recordando o que vivemos que foi, quase sempre, tão bom.           

sábado, 19 de dezembro de 2015

"CHEIROS DA VIDA"  -  138  -   "UMA LONGA  ESTRADA A PERCORRER"


          Num certo parágrafo do Capítulo 77 deste livro, escrevo: "...Sabemos que ainda não estamos livres das ciladas da vida, afinal estamos vivos, no entanto, mais do que nunca,  preparados para enfrentar o que de amargo possa vir pela frente".


          
Passados alguns anos vejo que não sou habilidoso para avaliar o futuro. Acho mesmo que ninguém é.


          Na verdade depois dessa afirmação, certamente influenciada pelo momento feliz que vivia, várias ciladas a vida tem aprontado comigo e, indiretamente, com aqueles que me cercam, principalmente minha mulher, filhos e netos.

          Todos os que me acompanham devem ter notado que há meses tenho estado ausente. Certamente algo deve ter acontecido com o Zé Carlos, pensam. E aconteceu...

          Uma cilada, talvez a mais cruel que a vida  tenha me aprontado. Dela, pouco quero contar; apenas dizer que abruptamente fiquei doente. Após três cirurgias dizem os médicos e, neles devo acreditar, fiquei curado de um câncer que invadiu minha bexiga e próstata. Tudo isso apesar do acompanhamento constante feito ao longo de toda a minha vida  adulta passado os quarenta.


          Realmente uma verdadeira cilada!


          Após a última cirurgia realizada em seis de agosto deste ano de 2015, com duração de quase sete horas, fui devolvido à vida sem bexiga, sem próstata, ou seja, fui submetido a uma "prostatocistotomia radical", herdando uma bolsinha (urostomia: intervenção feita para criação cirúrgica de uma abertura artificial - estoma - dos condutos urinários na parede abdominal) que me acompanhará até o final dos meus dias desempenhando o papel de eliminadora dos líquidos processados em meu organismo.


          Ao final da cirurgia, quando voltei à vida, as primeiras palavras que ouvi do Dr. Paulo Costa Leite, meu amigo Paulinho, foi: "Zé!!! Um trator passou por cima de você e você venceu...".


          
Tania foi mais enfática: "Deus te deu mais anos de vida. Certamente ele conta com você para realizar mais coisas nesse mundo".


          
Na verdade ainda não me recuperei de todo da "porrada" que levei. Os médicos dizem que estou muito  bem.  Para os de casa, que convivem cotidianamente comigo, afirmam: "...o que ainda não está funcionando bem é a cabeça dele!"; essa, infelizmente, não posso extirpar. Afinal sairia mal nas fotografias...


         O que tinha que ser e, o que está por vir, depende pouco de mim e não estou com vontade de me prolongar nesses comentários.


         Quero voltar a contar minhas histórias e a comentar as coisas do mundo que estamos vivendo, preocupadíssimo com os destinos de nosso país.


         Voltemos ao "CHEIROS DA VIDA". Imediatamente. Pois ainda resta uma longa estrada a percorrer...