por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 23 de março de 2015

"CHEIROS DA VIDA" - 124 - ENTRANDO PELA VELHICE COM CUIDADO...





          Numa certa tarde qualquer, nem sei por qual motivo, estive com minha Tia Nenê que já passava em muito dos setenta anos, não sei. possivelmente já nos oitenta.

          No meio da conversa ela retirou de sua bolsa, como se já fosse uma ação preparada, um papelucho com quatro sonetos impressos na frente e verso do quase enxovalhado documento. 


          Disse que iria ler o primeiro dos quatro sonetos e, que logo após me passaria tal relíquia para que guardasse comigo: "talvez algum dia possa ser útil para você" disse-me ela. 


         Ato continuo começou a ler com firmeza, porém com voz quase suplicante e com leve toque declamatório. Muito atento e curioso ouvi sem perder uma palavra:

   
        Eis o poema:

        "ENVELHECER


Entra pela velhice com cuidado,

Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,

Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.

Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu redor não mude.

Matem-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...

Bastos Tigre  

Recife (PE) 1882/ Rio de Janeiro (RJ) 1957

         Pergunto: por quê logo agora esse poema veio às minhas mãos, guardado que estava há tantos anos? Respondo: mais uma prova da verdade dita e redita na atualidade: "Nada acontece por acaso...".


         Tia Nenê (Nelsinda Coelho Leal) faleceu em 2006 na mesma Casa de Saúde São José onde poucos dias antes nascera meu neto Miguel.


         Minha querida Tia viveu 97 anos e, pelo que todos que a rodeavam constataram, seguiu à risca os ensinamentos do poema de Bastos Tigre. 


        Lúcida até o fim, atualizada com tudo que acontecia ao redor, pintora amadora com um viés realista de um verdadeiro profissional, jovem de espírito que chegava a passar trotes requintados que fez meu irmão Guido, aquele que a acompanhou em todos os momentos de sua senescência, dar urros ao telefone e depois deixar-se envolver às tremendas gargalhadas.


        Muito religiosa até o fim, missa e comunhão diárias na Matriz de São João Batista na Rua Voluntários da Pátria em Botafogo, viz-à-viz ao edifício onde viveu as últimas décadas de sua vida, ela que foi uma das minhas principais incentivadoras desde o início de minha ousadia de tentar escrever e que seguidamente pedia, ao telefone, mais capítulos para ler, certamente quis me dar um receita de como bom-envelhecer.


        Eu que aprenda a lição pois, nos últimos tempos, tenho passado momentos de angustia que me deixam longe, muito longe, da mensagem de Bastos Tigre.


       Vale para mim definitivamente o adágio:  "Manda quem pode; obedece quem tem juízo".


      Preciso urgentemente ter juízo. Obrigado Tia Nenê!!! 

        

        

Nenhum comentário:

Postar um comentário