O ano de 1965 foi marcado por acontecimentos importantes. Evidentemente, o principal foi meu casamento com Tania celebrado no dia nove de julho.
No entanto, alguns acontecimentos avivaram minhas lembranças para alguns fatos que sempre despertaram minha atenção.
Todos os fatos, histórias, livros, filmes e documentários relativos à " Segunda Guerra Mundial", mesmo considerando a guerra um absurdo da humanidade, atraíram minha curiosidade. Vamos a um desses indagativos acontecimentos.
Em vinte e quatro de janeiro daquele ano morreu o político e estadista inglês Winston Leonard Spencer Churchill (1874-1965). Apesar de reconhecer seu valor dois fatos em sua vida sempre me deixaram intrigados.
Sua biografia me confunde. Nascido na aristocracia, combatente na Primeira Guerra Mundial, Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se uma voz lúcida no parlamento alertando a Inglaterra e todas as demais nações europeias que deviam a todo custo evitar o rearmamento da Alemanha e, em decorrência, uma possível agressão de efeitos incalculáveis ao mundo livre.
Considerando esses fatos históricos vem a minha primeira indagação intrigante: como um antinazista convicto defendia uma teoria baseada na "higiene racial"? Difícil compreender tal assertiva doutrinária de Churchill. Pelo menos, para mim.
A outra indagação refere-se ao bombardeio inclemente à capital do estado alemão da Saxônia, a cidade de Desdren, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Aquele que alertava o Parlamento Inglês definindo a Segunda Guerra Mundial como "uma guerra desnecessária" participaria de uma agressão sem sentido a um tesouro da humanidade?
Será que a destruição de uma cidade, também denominada a "Florença do Elba", devido ao seu incalculável acervo e valor histórico, cultural e artístico teria que ter inexoravelmente este destino?
Tenho lido a respeito por muitos anos e. a cada novo detalhe, tomo consciência daquele horror que transformou o leito do Rio Elba em um escoador rubro de sangue de civis inocentes e mais refugiados homens, mulheres, crianças, soldados, bem como de feridos vítimas anônimas da covardia do exército soviético também conivente com aquela chacina inominável.
De um momento para outro a cidade ficou reduzida a um monte de escombros onde hospitais improvisados exibiam sua cruz vermelha sobre o fundo branco. Ignorando qualquer sentimento humanitário Desdren ardeu durante sete dias e oito noites. Incrível acreditar que a crueldade aliada tenha se superado naqueles dias que a história se envergonhou.
Por derradeiro, é importante ressaltar que todos os documentos resgatados certificam que os derrotados esquadrões nazistas já haviam perdido qualquer capacidade de reação. A cidade não abrigava qualquer peça de artilharia aérea para sua defesa, nenhum abrigo, nenhuma indústria bélica e, por outro lado, os hospitais estavam superlotados.
Das 1,2 milhões de pessoas que se encontravam em Dresden, momentos antes do início dos ataques. morreram mais de 250 mil sendo que apenas cerca de 30 mil puderam ser identificadas. Mais de um terço dos prédios foram totalmente destruídos ou definitivamente danificados. O famoso centro histórico foi transformado em um monte de entulho.
Até 20 de março de 1945 foram contados 202.041 mortos, principalmente mulheres e crianças. Sendo impossível remover tantos corpos os mesmos foram incinerados em pleno local dos achados. Nunca ao longo da história tantas pessoas foram sacrificadas de forma tão gratuita na condução de uma guerra.
A conclusão que se chega é que esse ataque brutal não foi um engano do comando aéreo inglês, mas sim um genocídio planejado cujo objetivo era o de quebrar em definitivo "a moral da população" .
Em 17 de fevereiro de 1945 o General britânico Colin Grierson declarou, em Paris: "Os chefes da força aérea aliada tomaram finalmente a esperada decisão para efetuar bombardeios incondicionais e aterrorizantes aos grandes centros urbanos alemães; tais ações deveriam ser levados a cabo para selar o mais rapidamente possível o destino de Hitler".
Em decorrência o Marechal Arthur Harris. comandante da Força Aérea Britânica. procurou uma explicação do porquê de Dresden chegando à conclusão de que o próprio Churchill deu a ordem.
Na oficial "História da ofensiva aérea estratégica contra a Alemanha" é questionado se os soviéticos teriam exigido de Churchill a destruição de Dresden. Não é encontrado nenhum depoimento que afirme que tal pedido tenha sido feito pelos soviéticos.
Sempre restará uma dúvida. Churchill poderia ser classificado como um "criminoso de guerra"?
Sinceramente não sei responder...
Visando amenizar um pouco a pesada pauta das linhas deste capítulo seria bom focalizar o lado espirituoso de dois ícones britânicos: Winston Churchill e Bernard Shaw.
A história é bem conhecida, porém, é sempre bom recordá-la.
Refere-se a telegramas trocados entre esses dois personagens, sendo o primeiro um Convite de Shaw para Churchill: "Tenho o prazer e a honra de convidar digno Primeiro Ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver. " . Resposta de Churchill: "Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente estou impossibilitado de ir à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver...)
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2005
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