por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 31 de julho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 113 - GENERAL OLAVO LE MASSON




            General Olavo Le Masson.

          Masson era nosso Diretor Administrativo no DURB.

          Foi general sem nunca ter sido antes coronel, major, capitão ou algo assim . Jamais frequentou sequer uma Academia Militar. Nem sei se prestou serviço militar... Mas para nós da Sursan era o General Masson.

          Na realidade ele era general para nosso conforto, segurança e conveniência. Jamais alguém, estranho ao nosso grupo, duvidou de sua patente. 

          Usava sempre impecáveis ternos, geralmente de cor azul, gravatas de bom gosto e laços caprichados. Com seu rosto de formato  arredondado, sua calvície já pronunciada,  tez de cor predominante corada, voz sempre afirmativa e até autoritária, quando necessária era sua serventia, guardava todas as características de um austero militar prussiano, um daqueles da mais alta patente nazista.

          E bom ressaltar que esses fatos aconteceram na segunda metade da década de sessenta quanto estava no auge a chamada "Revolução de 1964". Os militares estavam "por cima". Sua companhia abria portas e era um passaporte seguro para um bom atendimento.

           Nossos salários permitiam, pelo menos uma vez por semana, um almoço em bons restaurantes. Na pior das hipóteses lá íamos nós para a "Churrascaria Parque-Recreio" no Flamengo.

          - Uma mesa boa para o General Masson!

          - Pois não! Quantos lugares?

          - Somos seis, sete. nove. doze... Variava,

          - Pode ser duas mesas.

          - Nada disso!  O general quer todo mundo reunido em uma única mesa.

          - "Já e já" senhores.

          Contendo forçadamente o riso contemplávamos a correria dos garçons e a presteza do "maitre" a providenciar uns aperitivos e "tira-gostos" por conta da casa.  

         - O general não está gostando dessas linguiças.

         - Imediatamente iremos recolhe-las e providenciar nova remessa.

         - Olha o tempo passando!

         - Num segundo tudo estará bem, senhores.

         Vez por outra o Masson vociferava.

         - Esse Whisky é "paraguaio!!!...

         - Vamos abrir nova garrafa na sua frente General.

         - Quero ver isso... E rápido!

         Quando saíamos do restaurante, já longe das vistas de nossos atendentes, dávamos boas gargalhadas. Imagino que até hoje, se  ainda estiverem vivos, aqueles garçons devem odiar a prepotência daquele general e seus amigos. 

         Só podia ser coisa desses "militares" deveriam concluir.

         Esse era nosso saudoso e  inesquecível "velho". Divertido e alegre, principalmente após o primeiro "gole", porém, um servidor público dos bons, daqueles difíceis de encontrar nos dias correntes e sobretudo um grande amigo;  defensor irredutível das causas de seu comandados. 

         Competente, honrado, pontual e exigente como poucos com o cumprimento das obrigações de todos nós honradamente seus "colegas de trabalho".

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida".

Uma das poucas fotos que tenho arquivada em meu computador onde aparece ao fundo OLAVO LE MASSON , com sua careca brilhando - Foto provavelmente de 1984 ou 1985 - Infelizmente nessa foto aparecem vários amigos já falecidos - Da esquerda para direita - Olavo Le Masson (em dia de seu aniversário - já falecido), Eng. Moisés Wibranowsky (então Diretor do Instituto de Geotécnica -  prematuramente falecido), Eng. Walter Gonçalves, Eu (então Sub-Secretário de Obras), Eng. Oswaldo Cardoso (ERCO-Engenharia), Eng. Ivan da Costa Pinto (Presidente da ERCO - Engenharia, já falecido), Eng Raymundo de Paula Soares ( Nosso grande líder e Ex-Secretário de Obras - já falecido). Foto tirada possivelmente no Adegão Português - Churrascaria no Campo de São Cristóvão









domingo, 27 de julho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 112 - CRIMINOSO DE GUERRA?





          O ano de 1965 foi marcado por acontecimentos importantes. Evidentemente, o principal foi meu casamento com Tania celebrado no dia nove de julho.

          No entanto, alguns acontecimentos avivaram minhas lembranças para alguns fatos que sempre despertaram minha atenção.

         Todos os fatos, histórias, livros, filmes e documentários relativos à " Segunda Guerra Mundial", mesmo considerando a guerra um absurdo da humanidade, atraíram minha curiosidade. Vamos a um desses indagativos acontecimentos.

          Em vinte e quatro de janeiro daquele ano morreu o político e estadista inglês Winston Leonard Spencer  Churchill (1874-1965). Apesar de reconhecer seu valor dois fatos em sua vida sempre me deixaram intrigados.


          Sua biografia me confunde. Nascido na aristocracia, combatente na Primeira Guerra Mundial, Prêmio Nobel de Literatura, tornou-se uma voz lúcida no parlamento alertando a Inglaterra e todas as demais nações europeias que deviam a todo custo evitar o rearmamento da Alemanha e, em decorrência, uma possível agressão de efeitos incalculáveis ao mundo livre.  


         Considerando esses fatos históricos vem a minha primeira indagação intrigante: como um antinazista convicto defendia uma teoria baseada na "higiene racial"? Difícil compreender tal assertiva doutrinária de Churchill. Pelo menos, para mim.


         A outra indagação refere-se ao bombardeio inclemente à capital do estado alemão da Saxônia, a cidade de Desdren, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945. Aquele que alertava o Parlamento Inglês definindo  a Segunda Guerra Mundial como "uma guerra desnecessária" participaria de uma agressão sem sentido a um tesouro da humanidade? 


          Será que a destruição de uma cidade, também denominada a "Florença do Elba", devido ao seu incalculável acervo e valor histórico, cultural e artístico teria que ter inexoravelmente este destino?


          Tenho lido  a respeito por muitos anos e. a cada novo detalhe, tomo consciência daquele horror que transformou o leito do Rio Elba em um escoador rubro de sangue de  civis inocentes e mais refugiados homens, mulheres, crianças, soldados, bem como de feridos vítimas anônimas da covardia do exército soviético também conivente com aquela chacina inominável.


          De um momento para outro a cidade ficou reduzida a um monte de escombros onde hospitais improvisados exibiam sua cruz vermelha sobre o fundo branco. Ignorando qualquer sentimento humanitário Desdren ardeu durante sete dias e oito noites. Incrível acreditar que a crueldade aliada tenha se superado naqueles dias que a história se envergonhou.


          Por derradeiro, é importante ressaltar que todos os documentos resgatados certificam que os derrotados esquadrões nazistas já haviam perdido qualquer capacidade de reação. A cidade não abrigava qualquer peça de artilharia aérea para sua defesa, nenhum abrigo, nenhuma indústria bélica e, por outro lado, os hospitais estavam superlotados.


           Das 1,2 milhões de pessoas que se encontravam em Dresden, momentos antes do início dos ataques.  morreram mais de 250 mil sendo que apenas cerca de 30 mil puderam ser identificadas. Mais de um terço dos prédios foram totalmente destruídos ou definitivamente danificados. O famoso centro histórico foi transformado em um monte de entulho.


          Até 20 de março de 1945 foram contados 202.041 mortos, principalmente mulheres e crianças. Sendo impossível remover tantos corpos os mesmos foram incinerados em pleno local dos achados. Nunca ao longo da história tantas pessoas foram sacrificadas de forma tão gratuita na condução de uma guerra.


          A conclusão que se chega é que esse ataque brutal não foi um engano do comando aéreo inglês, mas sim um genocídio planejado cujo objetivo era o de quebrar em definitivo "a moral da população" .


          Em 17 de fevereiro de 1945 o General britânico Colin Grierson declarou, em Paris: "Os chefes da força aérea aliada tomaram finalmente a esperada decisão para efetuar bombardeios incondicionais e aterrorizantes aos grandes centros urbanos alemães; tais ações deveriam ser levados a cabo para selar o mais rapidamente possível o destino de Hitler".


         Em decorrência o Marechal Arthur Harris. comandante da Força Aérea Britânica. procurou uma explicação do porquê de Dresden chegando à conclusão de que o próprio Churchill deu a ordem.


         Na oficial "História da ofensiva aérea estratégica contra a Alemanha" é questionado se os soviéticos teriam exigido de Churchill a destruição de Dresden. Não é encontrado nenhum depoimento que afirme que tal pedido tenha sido feito pelos soviéticos.


         Sempre restará uma dúvida. Churchill poderia ser classificado como um "criminoso de guerra"? 

         Sinceramente não sei responder...

         Visando amenizar um pouco a pesada pauta das linhas deste capítulo seria bom focalizar o lado espirituoso de dois ícones britânicos: Winston Churchill e Bernard Shaw.
A história é bem conhecida, porém, é sempre bom recordá-la.

         Refere-se a telegramas trocados entre esses dois personagens, sendo o primeiro um Convite de Shaw para Churchill: "Tenho o prazer e a honra de convidar digno Primeiro Ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver. " . Resposta de Churchill: "Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente estou impossibilitado de ir à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver...)


        - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2005

       

quarta-feira, 23 de julho de 2014

E X T R A - HOMENAGEM A ARIANO SUASSUNA - AULA ESPETÁCULO

"Querem transformar o Brasil em um Estados Unidos de Segunda Ordem: eu quero um Brasil de Primeira Ordem" - Ariano Suassuna.

"Ser poeta é não ter nenhuma obrigação com a veracidade" - Ariano Suassuna.




sábado, 12 de julho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 111 - ERA A VIDA QUE SEGUIA...





             Uma parte da rotina de minha nova vida no Rio de Janeiro estava bem definida envolvida por uma sensação de retomada da rota correta. Rapidamente me adaptei ao ritmo, ao ambiente, às tarefas a desenvolver na Sursan, principalmente, agradecendo a Deus a possibilidade de participar das rápidas transformações urbanísticas que eram implantadas em nossa Cidade-Estado da Guanabara.

          Os colegas de trabalho haviam desenvolvido, ao longo dos anos precedentes, um ambiente de trabalho sadio, tendo sido muito fácil minha inserção em seu meio. Rapidamente já os tratava como "velhos amigos". Acho que não teria melhor forma de começar minha vida profissional no Serviço Público.


          Havia, no entanto, outras empreitadas simultâneas para ocupar minha preocupações: a complementação de minha conturbada vida universitária prejudicada por vários anos perdidos e, as providências para montagem do meu apartamento na Usina da Tijuca juntamente com os preparativos para meu casamento já definitivamente marcado para julho daquele ano.


          As aulas na FEUEG - Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado da Guanabara começavam exatamente às 7,00 horas da manhã, fato este confirmado, agora, enquanto escrevo essas linhas, após ligação telefônica para meu amigo desde aqueles tempos, Engenheiro Moacyr Carvalho Filho, nosso digno Representante de Turma, cargo vitalício que ocupa com maestria e dignidade até os dias de hoje.


          Naqueles anos de Faculdade, Moacyr usava toda sua habilidade pessoal e diplomacia para nos bem representar, dialogando com nossos mestres para convencê-los a atender nossas decisões e interesses,  adiando provas, transformando "trabalhos práticos" ou "estágios" em notas mensais, ou ainda, conseguindo outras benesses para os colegas, como uma revisão de nota, sempre para mais é claro. 


          Inesquecível sua atuação. Esse é o nosso "Moacyr" o mais mais jovem da turma e organizador perpétuo de nossos almoços e encontros periódicos que mantém acessa a chama de amizades eternas. 


          Voltarei a falar dele em um dos próximos capítulos.


         O importante é que, como na Sursan, a ambientação com mestres e colegas foi muito fácil. As únicas diferenças percebidas foram os tempos de viagem até à Rua Fonseca Teles, 121. Por volta das seis da manhã, todos os dias, pegava um ônibus da linha  "634 - Saenz Peña - Freguesia (Ilha do Governador)" que fazia um verdadeiro "tour" pela cidade até chegar a São Cristóvão. Faltava ainda subir a ladeira do "Fonsecão", assim chamado o prédio da Faculdade, para se chegar às salas de aula. Muita diferença de Petrópolis quando uma caminhada de cinco minutos nos levava para a Escola.


         A outra diferença era que daquele ambiente aconchegante e quase privativo de nossos campus petropolitano, passamos a frequentar uma escola com muito maior número de alunos e de instalações mais amplas, onde se perdia um pouco do encanto de nossa privacidade onde todos conviviam e até moravam juntos em "repúblicas". 


          Era a vida que seguia...


          Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo  ao longo do ano de 2005,