por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 25 de junho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 110 - O ORGULHO DE TER PERTENCIDO À SURSAN


            A partir deste capítulo os meus fieis leitores irão ler muitas coisas relativas à SURSAN .   Meu ingresso no Serviço Público se deu em 19 de maio de 1965, lotado que fui no Departamento de Urbanização da SURSAN e, indicado para trabalhar como Auxiliar-Técnico no Serviço de Planejamento da Divisão Técnica - Rua Marechal Câmara, 186 - 6º andar - Castelo - Centro - Edifício das Bandeirantes do Brasil.

          Era o início de uma carreira que só iria se encerrar em 12 de janeiro de 1992 como Engenheiro - Classe Especial lotado no Gabinete do Secretário Municipal de Obras e Serviços Públicos.


          A SURSAN foi fundada ao longo da administração do então Prefeito do Distrito Federal, Embaixador Francisco Negrão de Lima, juntamente com a criação do Fundo Especial de Obras Públicas tendo sido definido seu  Plano de Realizações através a  Mensagem 53 de 1957.


         Esse plano previa, entre outras, a realização das seguintes intervenções para modernização  da cidade: ligação de Copacabana com a região do Porto planejando e executando as obras de implantação do Túnel Catumbi-Laranjeiras (atual Túnel Santa Bárbara), construção das avenidas Beira-Mar, Avenida Norte-Sul, Avenida Perimetral e parte das avenidas Presidente Vargas, Radial-Sul, e ainda uma série de túneis, viadutos, duplicações de vias, planos de capeamento e recapeamento asfáltico de vias e um série vultosa de obras complementares que irão aparecendo com o desenvolver dos capítulos seguintes.


         Faziam ainda parte do Plano  várias intervenções visando a melhoria do saneamento e do esgotamento pluvial de toda a área da então Capital da República e mais tarde, do Estado da Guanabara, destacando-se, ainda, as obras prioritárias para melhoria do sistema de abastecimento de água potável à cidade, culminando com a implantação da nova Adutora do Guandu. 

         Estas obras, referidas no parágrafo anterior, no entanto, eram de responsabilidade de outros departamentos da SURSAN como o D.R.C - Departamento de Rios e Canais, D.E.S. - Departamento do Saneamento e D.A.A. Departamento de Águas - estes dois hoje compondo a CEDAE.

          Em decorrência das chuvas intensas que castigaram o Estado da Guanabara no decorrer dos verões de 1966 e 1967 foi criado o Instituto de Geotécnica que logo granjeou prestígio junto aos concidadãos, com um sem número de intervenções em encostas, eliminação de áreas de risco com incansável zelo. Como resultado a Cidade conheceu, alguns poucos anos mais tarde, um verão com intensidades de chuva muito superiores  às ocorridas  em 66 e 67. A memória da cidade, no entanto, não registra esse tormento pois, durante o primeiros anos do IG - Instituto de Geotécnica, foram concentrados recurso, projetos e obras nas regiões de maior risco  visando salvaguardar vidas preciosas preferencialmente nas áreas mais carentes. Essa chuvas de intensidade e continuidade jamais vistas, aconteceu nos meses de janeiro e fevereiro de 1971. 

          Todo o quadro de servidores da SURSAN sentiu-se gratificado com o o acontecido. Oportunamente retornarei ao assunto, inclusive com números que podem mensurar a grandeza da catástrofe que foi evitada. 

          Na verdade a Cidade deve muito a atuação obstinada de nosso Secretário de Obras da época, Engenheiro Raymundo de Paula Soares.

         Destas páginas, com emoção, agradeço a atuação deste nosso grande líder, até hoje lembrado por toda uma geração de engenheiros, geólogos e arquitetos. Sua memória deveria ser melhor reverenciada pelas nossas novas gerações que deviam conhecer com detalhes a dedicação desse incansável e modelar servidor da "coisa pública". 

          Sempre presente em cada recanto da Guanabara, ele mesmo pilotando um frágil helicóptero "Hughes - 300", aterrando em locais inusitados, procurando sempre mais soluções ou idéias para melhorar a vida e a modernidade desta Cidade.  

         Voei várias vezes com ele e ficava cada vez mais influenciado pelo seu jeito de encarar nossa profissão e, encantado com a paisagem harmoniosa e ímpar  desta cidade vista de cima. PS, como era chamado carinhosamente por seus colegas, amigos e liderados, sempre procurava indagar nossa visão de cada problema; ficava feliz ao nos envolver passo a passo com os problemas da engenharia. 

        Esse era Paula Soares assim como são vários companheiros, grandes amigos até hoje. Pena que vários destes verdadeiros irmãos já se foram; nosso preito de saudade é reconfortado pela consciência que levaram consigo o sentimento do dever cumprido...

          Com muita saudade reverencio com um beijo fraternal esse nosso eterno companheiro e amigo que até o último átimo de vida pensava em coisas novas para essa Cidade, entre outros, o projeto que chamava de "Pássaro Semeador" para replantio de encostas desgastadas e, uma melhor alternativa para construção do Túnel da Covanca (uma velha obsessão). 

         O principal, Paula Soares era um amante de cada pedacinho de nosso chão, conhecedor profundo de nossa terra e "carioca de coração", nascido que fora ele em Curitiba.


         Esses diversos Departamentos, citados anteriormente, foram sendo incorporados à SURSAN ao longo de sua vida. Vida esta interrompida equivocadamente na Administração do Governador Chagas Freitas, em 1975.

        Desaparecia, assim, um órgão formado por especialistas de larga capacidade técnica, experiência e, sobretudo, profundo conhecimento dos problemas urbanos da Cidade.

         Lamentável!!!

         Hoje, a cada canto que vou nesta Cidade Maravilhosa, encontro alguma obra que direta ou indiretamente teve somada na sua implantação alguma intervenção minha, pequena que fosse. 

        Tenho muito orgulho de ter pertencido aos quadros da SURSAN e, ter colaborado de alguma forma para melhoria da qualidade de vida de todos nós. Afinal sou, com muita ufania, um carioca.

         Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito no Rio de Janeiro em 2005.

        

          








quarta-feira, 18 de junho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 109 - UMA GRANDE DIFERENÇA...





          Verdadeiramente a negociação para a venda do curso foi rápida. Mais simples ainda foi a minha transferência para a Faculdade de Engenharia da UEG - Universidade do Estado da Guanabara, atual UERJ - Universidade do Estado do Rio Janeiro.

           Comigo vieram muitos colegas: Luiz Edmundo, Fernando Vaz, Roberto Morais. Luiz Eduardo Tinoco, Jean Michel Pinelli, Antonio Bali, Fernando Tostes, Alcebíades Gomes (o Bill), sem contar  outros que se transferiram para a PUC do  Rio ou Fluminense.


          Com essa transferência perderia mais um ano de minha vida universitária pois. troquei o quarto ano de Engenharia Mecânica pelo terceiro ano de Engenharia Civil. Sabia decisão pois, já em abril estava trabalhando na Sursan - Superintendência de Urbanização e Saneamento da Secretaria de Obras do Estado da Guanabara-. 


          Nesta época o Governador do "saudoso" Estado da Guanabara era o ex-deputado da UDN - União Democrática Nacional - Carlos Frederico Werneck de Lacerda e, o Diretor do DURB, departamento onde já-e-já estaria lotado, o Engenheiro Marcos Tito Tamoyo da Silva, futuro Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.


          A história, resumidamente, foi a seguinte: Guido me avisara de que havia uma vaga para desenhista no Departamento de Urbanização onde ele, engenheiro efetivo, trabalhava como assessor do Diretor.


         Fiz uma prova e, logo fui encaminhado ao exame médico. O "bendito" oftalmologista  me reprovou baseado num astigmatismo que me impedia de ser desenhista. Isso, segundo ele. 


         Fiquei muito chateado. Aprendi, no entanto, que existem coisas aparentemente ruins que no futuro se transformam em verdadeiros tesouros.


         Fui finalmente contratado como auxiliar-técnico, ganhando quase a metade do salário de um desenhista. Ganharia o que hoje equivaleria a um salário de "estagiário de engenharia" com possibilidades de, concluído o curso, ser contratado como Engenheiro-Celetista (critério preferencial na administração pública na época).


         Aqueles que persistem, com paciência, em me acompanhar nessa viagem através deste Blog, vão verificar o que de bom, Deus estava me preparando. Uma carreira digna, profícua e longa, dedicada a esta minha "Cidade Maravilhosa". Foram décadas seguidas servindo minha terra natal. Sinto-me profundamente orgulhoso do que fiz por essa cidade que tão bem me acolheu naquele 1º de agosto de 1939 - dia do meu nascimento. Foram tempos de imensa satisfação em trabalhar, aprender com mestres inolvidáveis e fazer um sem-número de amizades profundas que permanecem até hoje e, para todo sempre.


          Ao desenvolver minha missão senti que pelas mãos de Deus fui encaminhado para o lugar certo. Minha vida profissional foi muito feliz.


         Me conformei com o salário mais baixo e tratei de recomeçar minha vida como professor para completar uma renda que me permitisse realizar o que havíamos planejado, Tania e eu: planejávamos casar ao longo das férias de julho daquele ano de 1965.

    
         Minha vida continuava numa correria igual à de Petrópolis: faculdade pela manhã, Sursan à tarde e, ministrar aulas quase todas as noites.

         Paulatinamente recomeçava a conquistar novos alunos particulares bem como voltava a formar pequenos grupos - assim era melhor. No fundo o que me fazia falta eram as aulas nos colégios e principalmente no meu CEPES. No sistema curricular praticado em Petrópolis podia desenvolver um programa planejado, sempre procurando modernizar, facilitar e tornar mais atraentes as aulas de matemática, desenho e, eventualmente física, principalmente as disciplinas de  Calorimetria e Ótica-Geométrica.


         Havia no entanto uma grande diferença a meu favor: estava de volta ao conforto de minha casa na Tijuca, perto de minha de minha família e de minha noiva querida. Realmente, uma grande diferença...


          Efetivamente, Tania e eu, casamos numa sexta-feira, dia 9 de julho de 1965, às dezoito horas, na Igreja de São Pedro, à Avenida Paulo de Frontin nº 566, durante Missa Nupcial de Ação de Graças  celebrada especialmente pelo Frei Gabriel Lanna, grande amigo da Família Curty Giffoni.


Havia uma grande diferença, estava de volta ao Rio e perto de minha noiva. Linda, linda, linda...



           Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito na cidade de Arraial do Cabo ao longo do ano de 2005.

         



segunda-feira, 9 de junho de 2014

"CHEIROS DA VIDA" - 108 - IMAGINEM EU?!!!




                De volta ao dia-a-dia de Petrópolis recebi muito carinho de colegas, alunos e até de professores da faculdade, em especial o Professor Miguel que parecia tão feliz quanto eu pela minha intrepidez de ficar noivo. Nunca tive oportunidade de dizê-lo: minha decisão, em grade parte, fora influenciada por  aquele diálogo rápido de uma tarde de sábado.

          Sentia-me animado como nos primeiros momentos de vida acadêmica naquela cidade. Muita coragem, ânimo e otimismo. Quase não lembrava mais daquele Zé Carlos abatido de semanas atrás.

          A decisão de vender o Curso foi logo tomada; consenso imediato conforme acordo com meu sócio e, já agora grande amigo, Ivan Padilha. Levaríamos o curso até o Vestibular de 1965 concluso e, logo após, com o resultado estupendo como na realidade aconteceu, anunciaríamos a venda sem alarde, para alguns interessados já cadastrados. Com a matrícula  para o novo ano letivo já iniciada, com bastante aceitação, foi fácil a negociação.

          Vendemos por um bom preço e com a parte de 50% que me coube comprei um apartamento no Rio. Na verdade comprei o apartamento de meu irmão Luiz Cesar que já estava de mudança para outro maior que adquirira na Rua Uruguai.

          Ficava mais próxima a consecução dos planos de Tania e meus. De imediato começamos a visitá-lo com assiduidade a cada oportunidade,  procurando sempre sonhar e planejar as modificações, obras, confecção de armários e pintura a nosso gosto.

          Verdade se diga: Maria Helena, minha cunhada e, Luiz Cesar, meu irmão, conservaram muito bem aquele patrimônio acarretando um custo bem baixo nas adaptações a nosso gosto. Enfim planejávamos nosso lar que de sonho tornava-se  a cada dia mais e mais uma realidade e fonte de felicidade.

         Já em fevereiro de 1965, num certo dia de verão lindo.  passei-o praticamente na íntegra dando aula de revisão e preparação para prova de desenho que se realizaria na manhã do dia seguinte na PUC do Rio de Janeiro.

         A minha participação estava prevista para terminar ás 19,30 horas quando passaria o bastão ao colega Marcio Eiras que levaria a tarefa até às 22,30 horas.

        Terminada a minha participação, bastante esgotado procurei livrar-me o mais rapidamente de meu jaleco, passar uma água no rosto e correr para pegar o ônibus da Única que passaria na esquina às 19,45 horas com destino ao Rio.

          Fui abordado, já na calçada da Rua Barão de Tefé, por um aluno: o  Bragança.

         -  Professor Leal! Meu carro está estacionado ali na esquina. Proponho levá-lo até sua casa no Rio, um pulo e, em troca solicito passar a noite me explicando toda matéria de Perspectiva. Não levo noção da matéria e, sei que sempre cai uma questão valendo quatro decisivos pontos.  É "nota garantida". 

         - É, isso o que tem acontecido nos últimos anos.

         - Então! Assisti algumas poucas aulas. Seu método é simples, claro e compacto; muito bem bolado. Tenho certeza que em quatro ou cinco horas posso captar toda a matéria.

         - Até ai tuto bem. Sei que você é um cara de rara inteligência e bastante objetivo. Eu é que me acho incapaz desse milagre, sobretudo, depois de um dia de intenso trabalho.

          -  Basta o senhor condensar todo o programa para mim; tenho certeza que do resto dou conta. 

          - Será que faço essa proeza. Passar toda uma matéria em algumas poucas horas madrugada a dentro?

          -Claro que sim! Pago o preço que o senhor pedir.

         Bragança era um aluno de inteligencia fora de série, bem dotado de recursos financeiros, dono de um belo carro esporte porém, pouco assíduo às aulas. 

          Pensei por um lapso de tempo: não estou roubando ninguém, o cara tem dinheiro para valer; eu estou precisando de "gaita" para realizar meu sonho e mais, não sou malandro e as madrugadas jamais me meteram medo.

         Pensei mais um pouco e disse: seja o que Deus quiser; vamos lá a esse desafio. Te cobro tanto (pisei forte!). Não houve contestação. 

        Quando dei por mim estávamos na minha casa modesta da Tijuca com mamãe servindo algo para nos alimentar e a aula rolando. Esse mister foi quase até às sete da manhã quando o cara assinou o cheque e à toda, após um saudável café da manhã, se mandou para a PUC.

         Dias depois me presenteou uma garrafa de uísque dos bons em agradecimento . O meu aluno de última hora tirou sete na prova e havia passado para Engenharia da PUC.

         Nunca, jamais, fui tão bem remunerado por algumas poucas aulas. Se ele estava feliz; imaginem eu?!!!

         - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida! escrito em Arraial do Cabo em 2005.