por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 20 de abril de 2016

"CHEIROS DA VIDA" - 148 - CASCATINHA TAUNAY

                    Está difícil retomar o caminho...
          A situação política, administrativa, econômica e moral do país está nos levando a um profundo poço. No andar voraz do tempo (Ressonância Shumann?) a fundura deste abismo parece cada vez ficar mais distante.
          Esse fato somado ao meu estado de saúde, ainda em recuperação após as cirurgias do ano passado, a falta de dinheiro que não é novidade, e que atinge todos os brasileiros, bem como a sequência interminável de dias excessivamente quentes, tem abalado meu ânimo para coordenar as idéias e, sentar diante do computador e dar sequência à tarefa a que me impus. 
          A cada dia novo escândalo atinge em cheio o governo petista e, indiretamente, agride a cada um de nós. Encarando com realismo os fatos que vêm acontecendo nada me causa admiração. Desde de 2003, com a posse de Lula, venho alertando que certamente o Brasil enfrentaria grave crise. A nacionalidade sairia bastante machucada após essa experiência tresloucada com o populismo do chamado lulo-petismo.
     .                  Assim vem acontecendo. Todas as conquistas alcançadas até então, escoaram pelo ralo, inclusive o Plano Real que nos afastou do temível fantasma da inflação. Teremos muito a falar dessa desgraça vermelha que atingiu nosso país.
          O pior de tudo: não sabemos o fim desse drama e o que está reservado para destino de nosso povo.
          Vamos tentar, mais uma vez, voltar à nossa história.
          Na Sursan, após a entrega da "Proposta Orçamentária" o ritmo de trabalho tomou o caminho da normalidade e, usualmente, antes das oito já estava em casa. Era setembro e próximo do final da primeira quinzena aconteceu um chamado"veranico" fora do tempo. Dias seguidos com ausência de chuva, baixa umidade relativa do ar e temperaturas elevadas, mesmo à noite.
          Tive uma ideia que logo-logo recebeu entusiástica aprovação da Tania.
          - Tania vamos aproveitar estes dias de pleno verão para curtir um programa baratinho e intensamente libertário (para nós, agora livres da eterna-vigilância dos tempos de namoro) e mais, um programa certamente muito romântico.
          - Falou em sair é comigo mesmo...
          - Então eu não sei?
          - Fala que eu já estou curiosa e gostando demais.
          - Calma! Há tempo para tudo.
          - Fala...
          - Antes, um beijinho!
          - Hiii..., pronto.
          - Fazemos um lanche desse tamaninho, bem rápido, na cozinha mesmo. Em seguida passo uma água no rosto, troco de camisa, você ajeita o cabelo bota meu perfume preferido, aquele Cabochard  novinho que esta na sua mesinha de cabeceira e partimos imediatamente para o Alto da Boa Vista viajando de bonde é claro - 67 - Alto da Boa Vista, respirando aquele ar puro da mata da Tijuca.
         - Só isso? 
         - Está me chamando de boboca? Olha que sento naquele sofá e fico vendo televisão até o galo do vizinho cantar...  Olha que eu sou "mau como um pica-pau". Brinca comigo... Aproveita me dá mais um beijinho
          - Tem mais?
          - "Pela madrugada"!!! Acho que você está mangando de mim... 
          - Então fala!
                       - Vai se arrumando que eu já e já estou pronto. É evidente que tem mais. Aprende a andar rápido pois comigo e tudo expresso; aprendi com papai. Sou um "azougue". Nunca esqueça: "azougue" sou eu.
         - Fala logo, meu Deus.
         - O programa é bem simples e baratinho.
         - Já não estou gostado...
         - Não tem outra alternativa: vou ligar a TV.
         - Não, não...
         - Então deixa eu falar. Já estamos perdendo tempo. Te digo mais: você vai gostar e, toda moite quente e linda como a de hoje, sem uma nuvem no céu, uma lua quase cheia você vai querer repetir muitas e muitas vezes. Lembra que temos o tempo à nossa disposição e "sem reloginhos...".
          - Chegando no Alto, na Praça Afonso Vizeu, descemos calmamente do bonde, nos damos as mãos como dois namoradinhos apaixonados, e a passos lentos seguimos a estradinha que nos levará à Cascatinha Taunay. Subimos ao bar, tomamos uma mesa bem perto da queda d'água, pedimos dois chopes bem gelados e um tira-gosto que já conheço e é muito bem feito.
         Assim foi feito.
         - Quer dizer que o senhor era "useiro e vezeiro" em vir aqui com outras garotas?
        - Antes fosse... Vinha sim com um monte de marmanjos - Fadini, Carlos Alberto, Afonso, Jorge, Paulinho e mais alguém do Sabóia para discutir futebol, política ou outro assunto da época, inclusive as coisas do amor. 
        - Acredito nisso?
        - A decisão é sua... Nada posso fazer. É pegar ou largar. Caso contrário, volto para casa e ligo a TV.
        - Estamos perdendo tempo. Claro que acredito no meu amor.
        Nossos rostos chegavam a ficar úmidos pelo vapor da águas em queda. Muitos namorados nos cercavam em mesas próximas e passamos uma noite de muitos  beijos, carícias e troca de confidências. Estávamos escrevendo a história de nosso amor.
         Muito a contra gosto descemos no bonde da uma da manhã e em menos de 30 minutos estávamos em casa, após termos subido a Estrada Velha da Tijuca a pé, sem nenhuma vivalma na rua, despreocupados, continuando o amor que começamos lá em cima, no Alto da Tijuca.
        Repetimos esse programa várias vezes em total segurança e repletos de felicidade.
        
        Em tempo -  Estávamos em plenos "Anos de Chumbo" como dizem os "esquerdinhas" falseando a verdade, até os dias atuais. Contrariamente ao que apregoam jamais fomos importunados por nada e por ninguém. Parecia que o mundo se resumia a nós: a noite, a cachoeira, o perfume da mata, a brisa cortada pelo bonde em sua veloz descida, a lua, e finalmente nossa presença transformando a rua deserta em uma passarela de afetos só nossa. 
        E o mais importante: nosso amor que já dura mais de cinquenta anos,  conserva com a mesma intensidade aqueles tempos de jovens.