por José Carlos Coelho Leal

domingo, 13 de março de 2016

"CHEIROS DA VIDA" - 147 - O PÓ ROYAL

              O dia dois de agosto de 1965 foi realmente cheio de emoções. O primeiro dia verdadeiramente útil, dia de estudo e trabalho após as férias nupciais. Ainda temos história para contar.

              Tanta coisa aconteceu que acabei saindo da Sursan lá pelas voltas das oito da noite, aproveitando o silêncio do escritório visando preparar o roteiro de trabalho para a missão que me houvera sido confiada.


          Felizmente meu colega de trabalho, o Roberto Pereira, um veterano bem mais velho que eu e, que mais tarde faria parte do nosso grupo do "Movimento Familiar Cristão", já tinha combinado comigo uma carona até em casa. Morávamos, ambos, na Estrada Velha da Tijuca e, por coincidência, também ele iria sair um pouco mais tarde. Devido ao retardo da hora, com o tráfego comportado, chegamos em casa antes das nove. Ainda me reportarei a Roberto nestas páginas.

   
          Quando subi as escadarias do prédio senti uma ansiedade de chegar logo em casa e abraçar e beijar minha mulher. Algo novo estava acontecendo na minha vida e, pela vez primeira estava chegando em casa, na minha casa, após um dia cansativo de trabalho. O primeiro de muitos e muitos.

          Já dentro do prédio comecei a correr e a saltar de dois em dois degraus até chegar, já com a chave na mão, para abrir a porta (esqueci de contar: meu edifício não tinha elevador).


          Tania estava linda e, na cozinha,  acabava de dar os retoques finais no preparo de nosso primeiro jantar de um dia de vida para valer. Muitos beijos e abraços e a busca do banho reconfortador que dava oficialmente por encerrado meu primeiro dia de trabalho. Estava muito feliz.


         Revigorado voltei à sala e o cheiro da comida estava maravilhoso. Tania no entanto não estava muito animada.


         - Que foi?

         - Sei lá?
         - Como, sei lá?

         - Nada, nada...
         - Fala menina!
         - O suflê.
         - Que tem o suflê; está tão cheiroso?
         - Deu tudo errado.
         - Tudo? Tudo o quê?
         - Não! 
         - Fala menina!
         - Esqueci de colocar pó Royal e o suflê não cresceu.
          Um beijo acabou com o desalento.

         - Está tudo maravilhoso! Vamos ver um pouco de televisão e namorar um pouquinho nos deliciando com este restinho de vinho pois, amanhã, recomeça a batalha da vida...